Ninguém quer ser livre. O que a gente quer é que o universo se configure de modo a potenciar a nossa natureza.
Tuesday, December 30, 2008
Monday, November 03, 2008
Act, ou o coiso
Vivemos interiormente um processo dialéctico entre o transmissível e o intransmissível. Fazem parte do transmissível todos os aspectos de uma dada teoria que possamos sentir como adequados à auto-percepção do funcionamento do nosso ser, e fazem parte do intransmissível aqueles sentimentos originais que, por muito que tentemos, não conseguimos explicitar com a justeza necessária, sem os adulterarmos nessas desesperadas tentativas.
Nada nos garante que o intransmissível seja, de facto, o mais importante. Mas não vejo forma de negar esse lado. Existirá alguém que crê honestamente que pode explicitar tudo o que pensa e que sente a um outro ser humano? Ou que algum dia - num futuro indeterminado, com a evolução dos mecanismos de percepção e explicitação, perante uma rigorosa análise da natureza da razão e da intuição, da gramática e de toda a sinalética disponível - o possa encontrar escrito nalguma teoria psicofilosófica?
Hegel poderia ter razão no processo que o espírito recorre na busca do conhecimento. Mas perdeu-a na fé do seu alcance. O sonho idealista de chegar ao conhecimento absoluto é infundado.
Kierkegaard, por outro lado, negligencia os aspectos universais e objectivos da conduta humana que de facto ninguém se atreve a por em causa. Porque é justamente essa objectividade que permite a comunicação e a compreensão entre os homens e que é provada até à exaustão pela resolução de inúmeros problemas tão concretos quanto indispensáveis e pela evolução extraordinária da ciência e do pensamento ao longo da história. Mas ganha razão e fecunda pertinência no elogio que faz ao cultivo da subjectividade. Porque, em última análise, o homem é um ser que se percebe único e irredutível, e só na realização deste mergulho em si mesmo, às suas aspirações e angústias particulares, pode esperar construir o seu lar e o seu caminho.
No fundo, o processo continua as ser o de Hegel: a individualidade será a síntese entre a universalidade e a particularidade. Mas esta particularidade é-nos dada com inultrapassável profundidade por Kierkegaard, na forma de uma subjectividade essencial, em função da qual se decide o valor vital de todo o tipo de pensamento.
Nada nos garante que o intransmissível seja, de facto, o mais importante. Mas não vejo forma de negar esse lado. Existirá alguém que crê honestamente que pode explicitar tudo o que pensa e que sente a um outro ser humano? Ou que algum dia - num futuro indeterminado, com a evolução dos mecanismos de percepção e explicitação, perante uma rigorosa análise da natureza da razão e da intuição, da gramática e de toda a sinalética disponível - o possa encontrar escrito nalguma teoria psicofilosófica?
Hegel poderia ter razão no processo que o espírito recorre na busca do conhecimento. Mas perdeu-a na fé do seu alcance. O sonho idealista de chegar ao conhecimento absoluto é infundado.
Kierkegaard, por outro lado, negligencia os aspectos universais e objectivos da conduta humana que de facto ninguém se atreve a por em causa. Porque é justamente essa objectividade que permite a comunicação e a compreensão entre os homens e que é provada até à exaustão pela resolução de inúmeros problemas tão concretos quanto indispensáveis e pela evolução extraordinária da ciência e do pensamento ao longo da história. Mas ganha razão e fecunda pertinência no elogio que faz ao cultivo da subjectividade. Porque, em última análise, o homem é um ser que se percebe único e irredutível, e só na realização deste mergulho em si mesmo, às suas aspirações e angústias particulares, pode esperar construir o seu lar e o seu caminho.
No fundo, o processo continua as ser o de Hegel: a individualidade será a síntese entre a universalidade e a particularidade. Mas esta particularidade é-nos dada com inultrapassável profundidade por Kierkegaard, na forma de uma subjectividade essencial, em função da qual se decide o valor vital de todo o tipo de pensamento.
Monday, August 27, 2007
O mais terrível é sentirmos a irreversibilidade do tempo. Que, mesmo quando tudo se repete, já nada se repete pela primeira vez. E que nos gastamos como borrachas na demorada corrosão das coisas. Um dia acordamos e já não é a primeira vez. A não ser quando a paixão nos diz que, nupcial e navegante, cada gesto de amor é sempre o primeiro.
Eduardo Prado Coelho
Eduardo Prado Coelho
Friday, January 05, 2007
Wednesday, January 03, 2007
a verdade é uma putéfia
Um amigo alertou-me para um pensamento do vergílio ferreira que reza assim: "a verdade é uma putéfia que abre as pernas a quem dá mais." Mas que raio de subversão. Será que depois do descrédito na religião, do abandono da legitimidade racional da moral, não nos resta absolutamente nada? alguém duvida que a verdade é o último reduto de toda a devastação ideológica? pois bem: a verdade pode ser vista como a ninfa que se despe só perante os eleitos. aos grandes eleitos dos deuses da inspiração ou do trabalho cientifico. ninguém duvida que a verdade funcional nos alivia as dores e nos conforta com lençóis frescos - e isso talvez nos devesse bastar! mas também reparem: temos fome de sentido, e o sentido tem fome de verdade. da verdade essencial. mas acontece que nem todos estão convidados para a grande ceia. acontece que só a elite dos poetas quânticos se pode presentear com algumas migalhas de razoabilidade.
talvez um dia todos nós, estúpidos e menos estúpidos um pouco, consigamos ver o rosto de Deus.
talvez um dia todos nós, estúpidos e menos estúpidos um pouco, consigamos ver o rosto de Deus.
Wednesday, July 26, 2006
Tuesday, July 11, 2006
Entrevista a mim mesmo
- Não achas, ou melhor, não acho isto de fazer uma entrevista a mim mesmo um bocado narcísico doentio?
- Sim, de facto... Fazer-me uma entrevista é de quem não tem já nenhuma fuga à rotina demencial do quotidiano...
- É um facto... Já te disseram, ou melhor, já alguém me disse que este blog é um antro de vacuidade sem consequência alguma? O niilismo em formato electrónico? Uma apologia à inanidade mental?
- Sim, mas isso até poderia ser um elogio...
- Um elogio?
- O deserto é um bom terreno para cultivar ideias...
- Então estou a dizer que o meu blog pode ser tomado como um espécie de começo?
- De começo não... mas uma espécie de possibilidade...
- Sim, mas até um blog inteiramente em branco cumpriria esse propósito...
- Existem diferenças... O branco é um possibilidade exigente. Isto é: existe uma imputabilidade tácita a quem ouse sujar a sua nudez sem macula. É conhecida a angústia poética da folha em branco...
- ...
- Ora, o meu blog não tem essas pretensões...
- Não percebi
- Pois não...
- Sim, de facto... Fazer-me uma entrevista é de quem não tem já nenhuma fuga à rotina demencial do quotidiano...
- É um facto... Já te disseram, ou melhor, já alguém me disse que este blog é um antro de vacuidade sem consequência alguma? O niilismo em formato electrónico? Uma apologia à inanidade mental?
- Sim, mas isso até poderia ser um elogio...
- Um elogio?
- O deserto é um bom terreno para cultivar ideias...
- Então estou a dizer que o meu blog pode ser tomado como um espécie de começo?
- De começo não... mas uma espécie de possibilidade...
- Sim, mas até um blog inteiramente em branco cumpriria esse propósito...
- Existem diferenças... O branco é um possibilidade exigente. Isto é: existe uma imputabilidade tácita a quem ouse sujar a sua nudez sem macula. É conhecida a angústia poética da folha em branco...
- ...
- Ora, o meu blog não tem essas pretensões...
- Não percebi
- Pois não...


